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Wania de Sousa Majadas

1941 - 2021

Amorosa e gentil, ensinou muito mais do que Literatura: ensinou a arte do amor.

Dona dos olhos verdes mais radiantes, da gargalhada mais fascinante e do amor mais doce do mundo.

Premiada por muitos de seus estudantes com o título de "melhor professora de Literatura do mundo", Wania optou pelo caminho do ensino ainda criança, quando enfileirava garrafas de vidro como se fossem alunos e ensinava a elas com o mesmo amor que anos depois transmitiu a seus queridos educandos. Foi uma professora paciente e amorosa, sempre disposta a ensinar um pouco mais sobre Machado de Assis e Ariano Suassuna, apresentar João Guimarães Rosa e Clarice Lispector a qualquer pupilo precioso que tivesse a sorte grande de ter Wania como mestra.

Amava a família. Junto com os irmãos, Josélia e Rômulo, construiu um lindo amor fraterno, um vínculo saudável e eterno. Dividiu a vida com Seu Benício por 30 anos, e quando o matrimônio já não era mais o desejo dos dois, seguiram amando-se como amigos. Antes de adoecer, era ela a responsável pela medicação do querido Benício, que sofria da doença de Parkinson. O casamento se foi, mas o respeito e o carinho dos dois perpetuaram para além da união, e estenderam-se tanto que a família expandiu um pouco mais. Tiveram três filhos (Sérgio, Laércio e Raul) e quatro netos (Bárbara, Cássio, Breno e Pedro) que foram educados nos pilares do respeito, afeto e amor, construídos pelos pais.

Animada, estava sempre organizando os eventos familiares, mantendo a família sempre unida. Ainda que resistissem alegando agenda cheia, choque de horários ou mesmo falta de vontade, a decisão de Wania sempre prevalecia. Era difícil dizer não àquele par de olhinhos verdes brilhantes, insistentes e acima de tudo, muito convincentes.

Justa, lutou bravamente para combater desigualdades e preconceitos. Não tolerava desrespeitos e injustiças. Empática, como apenas Wania sabia ser, doava-se em forma de atos e abraços, de afeto e de amor. Ajudou a todos que dela precisaram da forma como pôde, sempre fazendo o bem sem distinção de gênero, raça ou cor. No amor e na empatia de Wania cabia o mundo todo, em todas as suas formas.

Era doce e leve, carinhosa e afetuosa. Adorava viajar, apreciava muito cinema e era fã de Chico Buarque. O sorriso radiante e o jeito doce conquistaram muitas amizades ao longo da vida. Wania cativou muitos corações por onde passou, o jeito alegre e sábio servindo de fascínio a alguns, orgulho a outros, e inspiração para todos.

Wania era, acima de tudo, viva. Sentia o vento no rosto, apreciava uma boa música, fazia viagens divertidas. Fazia o bem, lutava pelo que acreditava e amava infinitamente. Soube viver. Guimarães Rosa, que Wania com certeza conhecia bem, dizia que “o que a vida quer da gente, é coragem”. Foi o que Wania teve. Coragem para lutar, para ser, para viver. Suassuna fala que “a tarefa de viver é dura, mas fascinante”. A querida e amada Wania cumpriu com êxito sua tarefa.

Aqui, familiares, amigos, alunos e colegas de profissão sentem saudade de Wania todos os dias. Ninguém tem sua gargalhada gostosa, e não existe nesse mundo olhos verdes e brilhantes como os seus. Sem a querida e amada professora, o mundo perde um pouco de sabedoria, conhecimento e vivacidade. Do lado de lá, ela segue cuidando e amando os seus como sempre fez. Wania viverá para sempre em uma obra literária, uma viagem bem feita ou uma música do Chico Buarque.

Wania nasceu em Orizona (GO) e faleceu em Goiânia (GO), aos 80 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Wania, Raul de Sousa Majadas. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Bárbara Aparecida Alves Queiroz, revisado por Renata Montanari e moderado por Rayane Urani em 22 de março de 2021.