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William Bezerra Cavalcanti

1927 - 2020

Um anzol, um isopor com iscas e outro com cerveja. Nas areias da praia e com o mar para explorar....

Dr. William, assim o chamavam. Todos. Ele gostava, afinal, filho de Pernambuco, veio pra cidade grande de Ita (navio que fazia a rota Recife-Rio de Janeiro), para "ganhar a vida”. Ganhou, estudou, se tornou doutor: advogado. E trouxe a família. Primeiro o único irmão, que se tornaria também doutor, médico. Depois viriam os pais.

Dr. William casou, teve três filhos, sete netos e duas bisnetas. "Adorava dizer que o DNA dele estava em todos nós. E está", conta a filha Cecilia, e segue: "Foi um homem muito bonito e de extremo charme. Ficou um velho bem velhinho, mas não tinha cabelos brancos. As pessoas duvidavam de sua idade por isso. Ele ria."

Era um homem quieto, na maioria das vezes. Gostava de pescaria à beira mar, quando ficava sozinho com sua cerveja. "Era bom vê-lo arrumar as linhas e anzóis na mesa da sala preparando tudo antes de sairmos para viajar nos fins de semana", diz a filha.

Até morrer, ia todo fim de semana encontrar os amigos no bar e tomar uma cerveja, e de segunda a sexta ia para o escritório. Em casa, continua a ouvir rádio (de pilha) e a fazer palavras cruzadas para ativar a memória. Tinha uma rotina simples.

Cecilia lembra mais: "Meu pai tinha um sorriso sincero, daqueles que se ri com os olhos também. Vou sentir sua falta. Falta desse sorriso, de chamá-lo de vez em quando de painho. Meu pai não merecia partir sem despedidas, ser cremado quase clandestinamente. Vou esperar isso tudo acabar, ir para uma praia e senti-lo livre, esperando a linha se mover para recolher e ver o peixe..."

William nasceu no Recife (PE) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 93 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Phydia de Athayde, a partir do testemunho enviado por filha Cecilia Cavalcanti, em 12 de maio de 2020.